Ela sentava sempre na terceira fileira, do lado direito. Professora, mãe de três filhos, comprometida com a igreja há mais de oito anos. O tipo de membro que o pastor agradece a Deus na oração da manhã.
Naquele domingo, durante a Escola Dominical, o professor estava explicando a doutrina da justificação. Boa aula, texto preparado, slides organizados. E ela estava com o celular na mão.
O professor percebeu. Eu percebi. O pensamento imediato foi o de sempre: distração.
Mas quando a aula terminou, ela me chamou de lado. E me mostrou a tela.
Ela tinha digitado no ChatGPT: "O que a Confissão de Westminster diz sobre justificação e como isso se relaciona com Romanos 3?"
E estava lendo a resposta enquanto o professor falava.
Fiquei em silêncio por um momento. Porque a primeira coisa que senti não foi incômodo com a tecnologia. Foi vergonha. A nossa EBD não estava chegando no nível de profundidade que aquela mulher precisava. E ela tinha encontrado uma forma de suprir isso sozinha, na terceira fileira, durante a aula.
O que aquele momento realmente revelou
Eu poderia ter lido aquela cena como um problema de etiqueta. Celular na EBD, desrespeitoso ao professor, exemplo ruim para os mais jovens. Seria uma leitura fácil. E errada.
O que aquele momento revelou foi outra coisa: a congregação está mais avançada do que os nossos sistemas ministeriais.
Ela não estava procurando entretenimento. Estava procurando profundidade. E quando a estrutura da nossa EBD não foi suficiente para entregar essa profundidade, ela encontrou uma ferramenta que tentou suprir a lacuna.
O problema não era o celular. O problema era que a nossa aula não estava alimentando uma fome real por conhecimento bíblico.
Isso me fez sentar com uma pergunta desconfortável durante dias: quantos membros da minha congregação estão fazendo o mesmo? Não na EBD, mas em casa, durante a semana, quando uma dúvida aparece e o pastor não está disponível?
E uma segunda pergunta, ainda mais desconfortável: o que a IA está dizendo a eles quando perguntam sobre fé, doutrina e Escritura?
O risco que está acontecendo sem que o pastor perceba
Há uma pesquisa recente que mostra que cristãos brasileiros já confiam em respostas de IA sobre fé tanto quanto confiam em pastores. Leia isso de novo.
Não estou dizendo que isso é certo. Estou dizendo que é real. E que ignorar essa realidade não vai mudar nada. Vai apenas deixar o pastor sem voz numa conversa que já está acontecendo.
O problema concreto é que a IA genérica, aquela que qualquer pessoa acessa pelo celular, não tem identidade confessional. Ela não sabe quem é Westminster. Ela não distingue teologia reformada de teologia da prosperidade. Ela equilibra perspectivas onde não deveria haver equilíbrio, e apresenta como "visões diferentes" o que a nossa confissão de fé trata como verdade estabelecida.
O que está em jogo
Quando um membro da sua congregação pergunta ao ChatGPT sobre predestinação, eleição ou a natureza da graça, ele recebe uma resposta que parece equilibrada, mas pode estar diluindo décadas de formação confessional em alguns parágrafos de relativismo teológico bem formulado.
Aquela mulher na terceira fileira era uma crente madura, com discernimento. Ela sabia filtrar o que estava lendo. Mas e os que estão há seis meses na fé? E os adolescentes? E os que nunca tiveram formação doutrinária sólida?
A pergunta que o pastor precisa se fazer
Depois daquele domingo, eu parei de fazer a pergunta errada sobre tecnologia. A pergunta errada é: "como eu impeço minha congregação de usar IA?"
Essa batalha já foi perdida antes de começar. A tecnologia está no bolso de cada pessoa que entra no templo. O celular vai continuar existindo. A pergunta certa é outra.
A pergunta que mudou tudo
Se a minha congregação vai usar IA de qualquer forma, o que eu posso fazer para que o ministério que ofereço seja mais profundo, mais fundamentado e mais confessional do que qualquer resposta genérica que uma máquina possa gerar?
Essa pergunta tem três implicações práticas para o ministério pastoral.
1
A EBD precisa ir além do informativo
Uma aula que só transmite informação vai sempre perder para uma ferramenta que transmite informação mais rápido. A EBD que a congregação precisa é a que conecta doutrina com vida, texto com experiência, confissão com formação de caráter.
2
A profundidade precisa ser acessível, não apenas existente
Muitos pastores têm profundidade, mas ela fica presa na biblioteca do gabinete. O desafio é criar estruturas ministeriais que levem essa profundidade até o membro que está na terceira fileira com um celular na mão.
3
O pastor precisa ser a voz mais confiável no tema da IA
Se o pastor não fala sobre tecnologia com sabedoria pastoral, alguém vai falar. E provavelmente vai falar de um lugar sem ancoragem confessional. A liderança nesse debate começa no púlpito e na EBD, não nas redes sociais.
O que eu fiz diferente depois daquele domingo
Aquele episódio acelerou algo que eu já vinha pensando há meses. Não dava mais para tratar a EBD como um produto pronto, igual para todas as congregações, sem diagnóstico do povo real que eu pastoreio.
Comecei a repensar o currículo. Comecei a perguntar: qual é o nível de maturidade doutrinária da minha congregação? Quais são as perguntas que eles levam para o celular porque não têm espaço para fazer na aula? O que está faltando não em conteúdo, mas em profundidade e aplicação?
E foi nesse processo que o Hokmah Expositor começou a ganhar a forma que tem hoje. Não como um gerador de conteúdo para o pastor preguiçoso, mas como um sistema que ajuda o pastor a ir mais fundo no texto, a construir currículo com progressão pedagógica real, e a oferecer à sua congregação uma profundidade que a IA genérica nunca vai conseguir entregar, porque a IA genérica não tem identidade confessional, não conhece o seu povo, e não foi construída para servir ao ministério reformado.
Aquela mulher na terceira fileira me ensinou algo que nenhum livro de homilética tinha me ensinado: a congregação está pronta para mais do que estamos oferecendo. O problema não é a fome deles. O problema é que os nossos sistemas ministeriais às vezes não estão à altura dessa fome.
A tecnologia não criou a fome por profundidade na sua congregação. Ela apenas revelou que essa fome existia e não estava sendo alimentada.